Engenheiro Agrônomo MSc. Fernando Carvalho – Desenvolvimento de Mercado BRQ
Engenheiro Agrônomo Dr. Bernardo Melo M. N. Borges – Gerente técnico BRQ
Os nematoides, conhecidos como inimigos invisíveis, estão entre os problemas fitossanitários mais importantes da agricultura brasileira. São capazes de inibir a absorção de água e de nutrientes, causando uma expressiva redução de produtividade. Nesse caso, o produtor só se dá conta dos danos causados por essa praga a partir do desenvolvimento das plantas, que fica abaixo do esperado. Grande parte dos fitonematoides encontra-se presente no solo na forma de ovos ou cistos, migrando para as plantas em seus primeiros estádios vegetativos na forma móvel (juvenis) e completando o ciclo de desenvolvimento nas raízes das plantas hospedeiras. Os nematoides apresentam uma estrutura denominada estilete, que é utilizada para sua alimentação. Assim, os nematoides inserem o estilete nas células radiculares para remover o conteúdo celular, danificando a estrutura das raízes. Dentre os principais desafios relacionados ao cultivo estão os nematoides de cisto (Heterodera glycines) e nematoides das lesões radiculares(Pratylenchus brachyurus). Estes representam duas das espécies mais agressivas no Brasil, por possuírem ciclos de vida curtos, podendo aumentar suas populações exponencialmente em pouco tempo.
Os nematoides das lesões radiculares (Pratylenchus brachyurus) são classificados como endoparasitas migradores, onde juvenis e adultos podem invadir a raiz e migrar constantemente de dentro para fora do sistema radicular. Os sintomas na planta podem ser vistos como podridões e necroses do sistema radicular, redução de radicelas e perda da raiz pivotante, clorose, murcha em períodos de estresse hídrico, abortamento de vagens e redução na produtividade. No cisto (Heterodera glycines) é diferente, os ovos, no interior dos cistos, sofrem embriogênese, dando origem ao juvenil de primeiro estádio (J1). Este tem sua ecdise (troca de cutícula) dentro do ovo e torna-se juvenil de segundo estádio (J2), que eclode, migra no solo e invade as raízes da planta. Após a penetração, o J2 induz modificações em um conjunto de células no local da penetração, estabelecendo o sítio de alimentação, denominado síncito, que passa a fornecer alimento para o nematoide. O J2 continua a se desenvolver, e sofre mais três ecdises e, finalmente, atinge a fase adulta, macho ou fêmea. Os sintomas são redução do porte da planta e clorose na parte aérea (“nanismo amarelo”), muito similar e bastante confundido com deficiência de nitrogênio. Os sintomas, apesar de parecidos com deficiência nutricional, aparecem em reboleias sendo resultado da elevada população dos nematoides que acabam por resultar na dificuldade de absorção de água e sais minerais da solução do solo. Os prejuízos que podem causar são gigantescos.
Estimativas de perdas econômicas destacam a importância dos nematoides para o agronegócio brasileiro e global. Uma pesquisa realizada recentemente pela Sociedade Brasileira de Nematologia (SBN) mostra o tamanho do dano econômico causado por esses vermes. No estudo, foram coletadas 21.661 amostras de solo por todo Brasil, em um universo amostral que representaria a maior parte dos biomas produtivos, culturas, manejos e solos. Dentre essas amostras, pasmem, 20.440 apresentavam contaminação por nematoides, 94% das amostras coletadas continham algum tipo de nematoide em algum estágio de vida. Costumamos brincar que no cenário da agricultura hoje só não tem problemas com nematoides quem não faz análise e esse dado confirma isso! Não apenas presentes nas amostras, mas causando grandes prejuízos. De acordo com o levantamento, já existe uma estimativa de R$ 65 bilhões em perdas por problemas gerados pelo ataque dos nematoides. Somente na cultura da soja, hoje, o prejuízo é de R$ 27,7 bilhões. Isso significa que, a cada 10 safras, uma inteira é perdida para os nematoides. Assustador, principalmente levando-se em conta que temos ferramentas atuais, modernas e sustentáveis para nos ajudar nessa batalha.
Muitas são as ferramentas que podemos adotar, mas em destaque temos o manejo químico que são defensivos de classe toxicológica alta e que podem controlar de maneira eficiente, mas também acarreta em alto risco de aplicação e alto investimento. Rotação de culturas, que se baseia no cultivo de plantas não hospedeiras ou que possuam baixo fator de reprodução (FR), como forma de supressão das populações dos nematoides, podendo ser por rotação ou sucessão de culturas. E, controle biológico, que são utilizados mecanismos de ação de fungos e bactérias, por exemplo, antibiose, predação, indução de tolerância da planta, produção de enzimas e toxinas, micoparasitismo, colonização da rizosfera das plantas hospedeiras e liberação de enzimas hidrolóticas, que atuam degradando a parede celular do nematoide. A somatória desses mecanismos contribui grandemente em toda a cadeia de controle, mas dentre as ferramentas, uma merece destaque, as bactérias Bacillus.
O gênero Bacillus spp. é encontrado nos mais diversificados ambientes, tem uma rápida multiplicação e podem sobreviver por longos períodos em diferentes ambientes, por exemplo, os secos e quentes do inverno do cerrado, por serem capazes de formar estruturas de sobrevivência chamadas de endósporos.
Formuladas a partir das bactérias Bacillus amyloliquefaciens B. thuringiensis e B. subtilis são capazes de promoverem uma proteção contra os fito parasitas , podendo atuar diretamente sobre eles através da produção de antibióticos e toxinas que impedem a eclosão e a motilidade dos juvenis, reduzindo, dessa forma, a penetração dos mesmos nas raízes das plantas. Outra maneira é modificando os exsudatos radiculares, o que leva ao não reconhecimento pelos nematoides, consequentemente inibindo a eclosão. Literalmente, enganam os nematoides fazendo com que não encontrem as raízes e morram de fome. Não só de controle vivem as plantas, essas bactérias também são excelentes promotoras de crescimento vegetal.
Essas bactérias conseguem atuar diretamente na produção ou alteração da concentração de fitormônios, solubilização de nutrientes do solo, pelo aumento da produção de raízes e sideróforos. Assim, podem promover um aumento na produtividade, especialmente quando associados a outras práticas de manejo. Além disso, o uso de Bacillus spp. apresenta inúmeras vantagens, como baixa toxidez, boa eficiência, ajuda positivamente na saúde do solo, não possuem período de carência, e podem ser usados em todas as culturas.
O uso de vários manejos integrados tem mostrado maior eficiência. O uso de microrganismos que auxiliam o bom desenvolvimento das plantas, vem sendo utilizado como forma alternativa no manejo integrado dos nematoides. Alguns microrganismos, quando introduzidos em uma área, podem equilibrar a microbiota do solo e, também podem formar simbiose com as raízes das plantas, contribuindo, assim, com uma melhor absorção de água. Potencializar a absorção dos nutrientes e possibilitar a planta de se recuperar do ataque de nematoides. O mercado de controle biológico no manejo de nematoides no Brasil continuará em expansão nos próximos anos devido às crescentes práticas agrícolas mais sustentáveis, sendo uma alternativa promissora que agrega benefícios para os produtores, consumidores e para toda a cadeira do agronegócio brasileiro.
O manejo de nematoides exige a combinação de diversas estratégias integradas para alcançar um controle eficaz e sustentável. Dentre essas, o uso de agentes biológicos como o Bacillus spp. tem se destacado por seu potencial em reduzir os danos causados pelos nematoides e, ao mesmo tempo, promover o desenvolvimento saudável das plantas. A adoção de práticas mais sustentáveis e a busca por alternativas ao manejo químico refletem a evolução do agronegócio brasileiro, que busca não apenas proteger as lavouras, mas também garantir a saúde do solo e a produtividade a longo prazo. Com a crescente demanda por práticas agrícolas sustentáveis, o mercado de controle biológico para o manejo de nematoides no Brasil está em plena expansão, tornando-se uma alternativa promissora que oferece benefícios tanto para os produtores quanto para os consumidores e toda a cadeia do agronegócio brasileiro.