Engenheira Agrônoma Gisele da Silva
Engenheiro Agrônomo Dr. Bernardo Melo Montes Nogueira Borges
A soja, uma cultura amplamente cultivada, demanda uma quantidade significante de nitrogênio para seu desenvolvimento, sendo o mais extraído e exportado pela cultura. Este nutriente desempenha um papel crucial em todas as fases do ciclo de vida da planta, desde o crescimento vegetativo até a maturação dos grãos. Surpreendentemente, a principal fonte de nitrogênio para a soja não é o solo, mas sim a atmosfera em que esse é transformado e fornecido às plantas pelo trabalho de bactérias fixadoras de nitrogênio. Claro que existem outras fontes de nitrogênio, como, por exemplo, a matéria orgânica do solo, mas essa é limitada. Esta reserva pode ser rapidamente esgotada. Além disso, as condições climáticas prevalentes nos solos brasileiros, como temperatura elevada e alta umidade na época das chuvas, podem acelerar a decomposição da matéria orgânica e, consequentemente, a perda de nitrogênio. Assim, devemos buscar sempre formas e fontes a fim de suprir a demanda constante por esse nutriente nas lavouras de soja.
A utilização de fertilizantes nitrogenados é a forma mais rápida de fornecer nitrogênio para as plantas. No entanto, essa prática tem um alto custo e, devido à alta demanda da cultura, poderia inviabilizar a produção de soja no Brasil. Em uma conta rápida e simples um ano de adubação nitrogenada, em preços normais de ureia, seria o equivalente ao gasto em 20 anos adotando a tecnologia de bactérias fixadoras de nitrogênio, vamos aprofundar mais nesse assunto ao longo do texto.
Existem algumas coisas, de fato, surpreendentes em se tratando de inoculação de soja com bradyrhizobium, a maior delas é que ainda existem produtores que não a fazem. Inacreditável! No artigo publicado recentemente na conceituada revista Environmental Techonoly & Innovation, os autores mencionam que na safra 19/20 houve uma economia de 15,2 bilhões de dólares com a adoção da inoculação (Telles et al., 2023). Claro que os benefícios dessa prática vão muito além de economia financeira, podemos citar várias outras como, por exemplo, a diminuição do uso de recursos finitos, incremento na qualidade do solo, aumento da diversidade microbiana, etc. De fato, são muitos, mas não paramos por aqui, temos que lembrar também de um grande aliado do produtor o Azospirillum brazilenses.
A bactéria tem se destacado como um promissor agente de biofertilização na agricultura, especialmente na cultura da soja e milho. Pertencente ao grupo dos microrganismos diazotróficos, essa bactéria é conhecida por sua capacidade de fixar nitrogênio atmosférico e promover o crescimento das plantas. A sua utilização na prática agrícola, através da técnica de coinoculação, tem despertado interesse devido aos benefícios que proporciona, como o aumento da produtividade das lavouras. Neste contexto, explorar a interação entre Azospirillum brasilense e Bradyrhizobium japonicum torna-se crucial para a busca por estratégias agrícolas mais eficientes e sustentáveis não só pelo efeito fixador de nitrogênio, mas também pelo efeito de promoção de crescimento.
As bactérias promotoras de crescimento são um grupo de microrganismos benéficos, em razão da sua capacidade de colonizar raízes da rizosfera, da filosfera e também tecidos internos das plantas, as (BCPCs). Elas estimulam o crescimento das plantas por meio de vários processos, capazes de estimular o crescimento e a ramificação do sistema radicular, melhorando sua eficiência morfológica, por meio da produção de fito-hormônios, mantendo relações com essas plantas onde elas não conseguem viver sem este processo de fixação ou tem seu crescimento e desenvolvimento limitado.
Estudos mostram que a associação de Rhizobium e Azospirillum, quando usados em conjunto, aumentam a eficiência de desenvolvimento da planta, trazendo efeitos benéficos para a planta, por meio de estimulação da produção de hormônios vegetais de crescimento e maior desenvolvimento radicular. Seu uso em conjunto aumenta a eficiência do uso de fertilizantes, a entrada de nitrogênio através da fixação biológica e representa uma grande economia para o produtor. Infelizmente, e surpreendentemente, muitos ainda não utilizam essa tecnologia.
No mesmo estudo, previamente citado, tem-se como dado que apenas 25% da área plantada de soja no Brasil faz uso da coinoculação no momento do plantio. Ainda tem muito espaço para crescer, principalmente quando temos como dado que a simples adoção desse manejo traz em retorno um incremento de 8% na produtividade de soja. Mas podemos ir além. Pensando no mercado de crédito de carbono, os autores estimam que cerca de 183 milhões de toneladas de equivalente CO2 deixaram de ser emitidas com a adoção da inoculação, o que traria uma receita de mais de 5 bilhões de dólares em créditos de carbono para o produtor de soja. Precisamos abrir o olho para isso!
A busca por formas sustentáveis e eficientes de suprir a demanda de nitrogênio na cultura da soja é crucial para garantir sua produtividade e viabilidade a longo prazo. A adoção de práticas, como a inoculação com bradyrhizobium e o uso de Azospirillum brasilense, não apenas oferece benefícios econômicos imediatos, mas também contribui para a preservação ambiental e a resiliência do sistema agrícola. No entanto, é fundamental superar as barreiras à sua implementação, promovendo a conscientização e oferecendo suporte técnico aos produtores, a fim de maximizar os benefícios dessas tecnologias e garantir um futuro sustentável para a agricultura de soja.